8# ARTES E ESPETCULOS 19.11.14

     8#1 EXPOSIO  A COR DA ALMA
     8#2 LIVROS  PAINEL DE ESCOMBROS
     8#3 LIVROS  PASSADO GELADO
     8#4 SHOWBIZ  SAIA-JUSTSSIMA
     8#5 TELEVISO  A NOSTALGIA  DOURADA
     8#6 VEJA RECOMENDA
     8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#8 J.R. GUZZO  CAROS LEITORES

8#1 EXPOSIO  A COR DA ALMA
Uma minuciosa e extensa mostra que permanecer um ano em cartaz no Brasil explora a grandeza da obra do russo Wassily Kandinsky, com seu impacto moderno de ritmo e emoo.
MRIO MENDES

     Se dependesse apenas de sua formao em direito e do meio social em que vivia, aos 30 anos o russo Wassily Kandinsky (1866-1944) teria embarcado em uma respeitvel e bem-posta carreira como professor universitrio. Por sorte, nos anos anteriores ele no havia se limitado a explorar apenas os arredores de sua cidade natal, Moscou. Em 1889, participou de uma expedio etnogrfica ao norte da Rssia, onde conheceu os povoados da regio e ficou fascinado com o interior modesto, porm ultracolorido, das casas dos camponeses. Mais tarde, em autobiografia, descreveu a sensao de ter sido arrebatado por um turbilho de cores como nunca antes na vida. Juntem-se a isso uma visita  mostra de pintores franceses impressionistas (as telas de Monet foram para ele outra inquietante revelao de forma e cor) e uma rcita da pera Lohengrin, de Richard Wagner, no Teatro Bolshoi, que ele considerou um paroxismo de expresso musical: bastou para Kandinsky trocar a segurana de uma existncia burguesa pelos estudos de pintura em Munique, e de l partir para uma aventura intelectual e espiritual como artista  um dos maiores do sculo XX. 
     As origens, as influncias e os desdobramentos do processo criativo do artista e de sua obra esto presentes na mostra Kandinsky: Tudo Comea num Ponto (em cartaz at 12 de janeiro no CCBB, em Braslia). "Nossa inteno foi mostrar Kandinsky de maneira diversa do que comumente se faz no Ocidente, onde ele  visto como um abstracionista desde o incio", explica a russa Evgenia Petrova, diretora do Museu Estatal Russo de So Petersburgo e curadora da exposio juntamente com o editor e colecionador, tambm russo, Joseph Kiblitsky. "A mostra acompanha a vida de Kandinsky desde suas viagens pelas aldeias at o momento em que ele assume no ser necessrio fazer pintura figurativa para despertar emoes e sentimentos e assim atrair o observador para dentro de seus quadros", descreve Evgenia. 
     Para melhor localizar e conceituar Kandinsky no contexto de sua poca e no panorama da arte moderna, a mostra conta tambm com obras de artistas russos e alemes que o precederam e influenciaram, e de seus contemporneos  entre os quais os integrantes do ncleo O Cavaleiro Azul, criado por ele pouco antes da I Guerra Mundial. Circundam sua obra ainda objetos da vida camponesa, trajes e utenslios xamnicos que o artista passou a colecionar depois das incurses pelo interior da Rssia czarista. Ao todo so mais de 100 trabalhos e peas vindos do museu estatal e outros sete museus russos e de colees particulares da Alemanha, ustria, Inglaterra e Frana. Outro ineditismo  seu tempo de permanncia no Brasil: depois de Braslia, Tudo Comea num Ponto poder ser vista nas unidades do CCBB do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e So Paulo, at 27 de outubro de 2015. 
     Apesar de sua rigorosa formao intelectual, Kandinsky era um homem religioso e mstico, fascinado pela tradio da cultura popular russa  sobretudo das manifestaes xamnicas e dos contos e lendas antigos, pouco valorizados nos crculos sociais mais cultivados. Assim, um de seus primeiros trabalhos artsticos foram lbuns de gravuras feitas  maneira dos artistas alemes do comeo do sculo XX  ilustraes para as histrias contadas desde tempos imemoriais. Outra grande influncia nesse incio de carreira foram o brilho e o colorido intensos dos cones religiosos russos. "Como na Rssia, sobretudo no norte, a atmosfera  fria, sombria e com pouca luz solar, os cones usavam muito vermelho e dourado, para lembrar fogo e calor em suas representaes de santos. Kandinsky compreendeu isso muito bem", diz Evgenia Petrova. A tela So Jorge, de 1911,  um flagrante exemplo: o colorido explosivo  praticamente abstracionista, mas o figurativismo resiste no espectro do cavaleiro derrotando o drago. Kandinsky no era o nico artista russo a praticar o abstracionismo no perodo; apenas para ilustrar o que seria uma longa enumerao, havia as telas suprematistas de Kazimir Malevich e os trabalhos orgnicos de Pavel Filonov. Mas a temtica francamente russa e o conceito de ritmo e cor  calcados na msica dodecafnica do austraco Arnold Schnberg, amigo de Kandinsky  eram particularidades suas. 
     A pintura abstrata desse grupo de artistas, assim como os acordes dissonantes de Igor Stravinsky, as ousadias dos Ballets Russes, a poesia revolucionria de Maiakovski e os experimentos cinematogrficos dos jovens Sergei Eisenstein e Dziga Vertov (com quem Kandinsky colaborou em filmes de animao), faz parte da vanguarda cultural que comeou a se desenhar na Rssia nos ltimos anos do domnio czarista e floresceu de maneira fulgurante com a revoluo bolchevique de 1917. Foi um breve perodo de criatividade vibrante, interrompido bruscamente pelo implacvel controle estatal da ento nascente Unio Sovitica (leia mais na pg. 118). Em 1932, a vanguarda russa foi aniquilada pela poltica de Stalin, que havia trs anos institura uma linha esttica oficial, o infame e hoje quase cmico Realismo Socialista. Kandinsky e Marc Chagall deixaram o pas em 1921, e seus quadros, considerados individualistas e burgueses, foram banidos dos museus soviticos. Malevich foi perseguido, torturado e morreu na misria, em 1935. E Filonov morreu totalmente esquecido, em 1941. Fora da Rssia, Kandinsky se tornou professor na prestigiosa Bauhaus alem, mas de novo enfrentou a ira totalitria ao ser declarado "artista degenerado" pelos nazistas. Tragicamente, toda a sua produo entre 1926 e 1933 se perdeu. Transferiu-se ento com a mulher para Neuilly-sur-Seine, na Frana, onde morreu durante a II Guerra. Coincidentemente, o abstracionismo viria a ser o principal movimento pictrico a partir do fim dos anos 40. "Pintores como Jackson Pollock e Hans Hartung foram claramente influenciados por Kandinsky. Embora tivessem uma obra muito particular, a ideia original vinha dele", sustenta Evgenia Petrova. Uma frase do prprio Kandinsky, porm, resume melhor a perenidade de seu ritmo e suas cores: "A pintura tem o poder e o esplendor dos contos de fadas". Ou, no seu caso, o mesmo encanto perturbador. 


8#2 LIVROS  PAINEL DE ESCOMBROS
Considerado o Guerra e Paz da II Guerra, Vida e Destino, romance do russo Vassili Grossman, passou dcadas sob censura na Unio Sovitica.
NELSON ASCHER

     Vida e Destino (traduo de Irineu Franco Perptuo; Alfaguara; 916 pginas; 89,90 reais, ou 29,90 na verso digital), volumoso romance histrico do russo Vassili Grossman (1905-1964), tinha tudo para no ser escrito. E, uma vez escrito, tinha igualmente tudo para desaparecer, talvez junto com o cadver do escritor. Quando este comeou sua carreira, o pouco de liberdade que o regime sovitico no havia ainda confiscado nos anos 20 j tinha desaparecido e levara junto inmeros escritores, poetas, dramaturgos. Na II Guerra Mundial, como um dos mais populares jornalistas da Unio Sovitica, Grossman acompanhou a ao nas frentes de batalha, com soldados comuns que pereciam aos milhes. Seu ponto de vista privilegiado permitiu que, junto com outro escritor e jornalista de renome, Ilia Ehrenburg, ele escrevesse o primeiro livro importante sobre o extermnio dos judeus (Grossman era ele mesmo judeu, e sua me foi morta pelos nazistas). No entanto, pronta para ser distribuda, essa obra, conhecida como O Livro Negro, foi confiscada e teve quase todos os exemplares destrudos  minimizar o Holocausto tornou-se a linha oficial nos pases comunistas. O primeiro romance de Grossman sobre a guerra. Por uma Justa Causa, depois de um breve sucesso inicial, passou a ser virulentamente atacado pela burocracia cultural e literria. E Vida e Destino, sua obra-prima, teve a publicao proibida. Alguns manuscritos protegidos por amigos ou parentes ensejaram sua edio no Ocidente, depois da morte do autor. Mas sua verso corrigida e definitiva (agora traduzida no Brasil) s saiu na Rssia com o fim do regime comunista. Mais que um romance a respeito da histria recente, portanto, ele se converteu em exemplo ilustrativo dessa histria. 
     H poucos meses celebrou-se o centenrio da ecloso da primeira guerra que fez jus ao mais abrangente dos adjetivos: mundial. H quem veja tudo o que se passou entre meados de 1914 e meados de 1945 como um nico e imenso conflito: a Guerra dos 30 Anos do Sculo XX, cujo epicentro se encontraria na Europa Centro-Oriental, nas terras que separam a Rssia e Alemanha (ou a Unio Sovitica e o III Reich). Na I Guerra, determinados a usar suas tropas para ganhar a guerra civil e tomar o poder, os bolcheviques aceitaram uma derrota ttica, cedendo imensos territrios aos alemes, que voltariam a reivindic-los a partir de 1941. Na II Guerra, a Unio Sovitica, depois de tentar a conciliao com os nazistas entre 1939 e 1941, se viu obrigada a lutar at uma vitria indiscutvel, o que lhe custou a vida de algo entre 20 e 25 milhes de soldados e civis, bem como a devastao total de suas principais cidades. Mas, passados quase trs quartos de sculo da vitria aliada, por que algum vai se informar sobre o assunto atravs de uma narrativa que, estilisticamente, est prxima do grande realismo dos mestres russos do sculo XIX? (E isso para nem falar das pitadas de realismo socialista, com teorias e conceitos mecnicos e simplistas pipocando aqui e ali para explicar uma realidade bem mais complicada.) 
     Ocorre que to imensas, complexas e labirnticas foram as catstrofes da primeira metade do sculo XX que, para comear a entend-las, no basta recorrer apenas  historiografia. A fico, em especial o romance com caractersticas enciclopdicas, propicia, a seu modo, um acesso insubstituvel ao que de fato importa em outras pocas e lugares. E  precisamente isso que Vida e Destino faz. Emulando Tolstoi, Grossman dedicou-se a escrever o romance que hoje  considerado o Guerra e Paz da II Guerra. Como seu ilustre antecessor, ele criou um painel gigantesco, povoado por dezenas de personagens, alguns imaginrios, outros reais. Embora seu centro seja a batalha de Stalingrado (que, retirando a iniciativa dos alemes, a colocou em mos russas), muito da ao transcorre em outros lugares, alguns deles significativamente pareados ou espelhados uns com os outros, como  o caso de um campo de concentrao alemo e de um campo de trabalhos forados sovitico.  por meio de recursos assim que o autor desenvolve aos poucos a ideia de que, no caso dos dois regimes que se enfrentavam naquele momento, o nacional-socialista e o comunista, quem sabe houvesse mais coincidncias e convergncias do que autnticas diferenas. 


8#3 LIVROS  PASSADO GELADO
O Irmo Alemo baseia-se em um segredo da famlia do autor  mas  um romance sem acar nem afeto.

     O ideal talvez fosse ler O Irmo Alemo (Companhia das Letras; 240 pginas; 39,90 reais, ou 27,90 na verso eletrnica) sem saber quem  o autor. Pois ele no  apenas um famoso compositor convertido em romancista: seu nome carrega um peso institucional que potencialmente compromete a leitura equilibrada de sua obra. Para parte considervel da elite intelectual brasileira, ele  o artista que enfrentou a ditadura e at hoje se empenha pelas boas causas progressistas. Seu quinto romance foi composto sobre matria biogrfica: em passagem pela Alemanha entre 1929 e 1930, o pai do autor, o historiador Srgio Buarque de Holanda, engravidou uma namorada alem e retornou ao Brasil antes do nascimento do filho  que nunca viria a conhecer. Tal segredo familiar  o centro da narrativa,  qual se incorporam documentos reais sobre o meio-irmo perdido. 
     O leitor, porm, no deve confundir o protagonista de O Irmo Alemo com o autor do livro. No, ele no se tornar um medalho da MPB: Francisco de Hollander (o sobrenome vem do modo como "de Holanda"  grafado nos documentos alemes) no passar de um medocre professor de portugus. Srgio de Hollander tampouco  Srgio Buarque de Holanda: no escrever nunca obras seminais como Razes do Brasil e Viso do Paraso. Como em romances anteriores do autor, o protagonista  um ser desgarrado, sem lugar no mundo e sem genuna conexo afetiva com seus prximos. Mas, se esses heris amorfos cabiam bem no universo ficcional de Estorvo ou Budapeste, em O Irmo Alemo instala-se uma dissonncia que a narrativa no resolve a contento. Por que, afinal, um sujeito to emocionalmente embotado como Chico de Hollander se importa tanto em encontrar um irmo esquecido em outro continente? 
     O modelo distante de O Irmo Alemo  Austerlitz, do alemo W.G. Sebald, alis citado pelo personagem-narrador (em consequncia de sua complicada relao com a vasta biblioteca do pai, Chico de Hollander tem o vcio de arrolar, s vezes com enfado, muitos nomes de escritores). Ali tambm h uma vtima da histria que investiga segredos do prprio passado, ligado ao Holocausto. Mas a dor e a solido do personagem Austerlitz so palpveis e pungentes, ainda que sem a mnima nota sentimental. Chico de Hollander, por contraste, v um amigo de infncia e o irmo mais velho desaparecerem durante a ditadura militar com a mais montona impassibilidade. Sim,  mesmo aconselhvel que, ao tratar de matria to familiar, um romancista tente impor certa nota impessoal  narrativa. Mas esse distanciamento no precisava se confundir com frieza. (Como o leitor j sabe mas o resenhista no pode deixar de informar, o autor de O Irmo Alemo se chama Chico Buarque.) 
JERNIMO TEIXEIRA


8#4 SHOWBIZ  SAIA-JUSTSSIMA
Como o caso do livro submetido  "leitura preventiva" de Luciana Gimenez enriquece o debate sobre as biografias.

     Meses atrs, a editora Objetiva contatou Luciana Gimenez com uma misso espinhosa: checar a consistncia de informaes sobre a vida da apresentadora de TV e ex-modelo contidas em um futuro lanamento. Escrita pelo jornalista americano Christopher Andersen e com previso de chegada ao Brasil em janeiro de 2015, mais de dois anos aps sua publicao no exterior, a biografia Mick  A Vida Selvagem e o Gnio Louco de Jagger deixa as glrias musicais do cantor dos Rolling Stones em segundo plano: o foco recai sobre as conquistas amorosas do roqueiro ingls. Luciana, naturalmente, tem lugar de honra no volume. Ao longo de 364 pginas, h 55 menes  ex-namorada que ganhou notoriedade ao dar  luz seu filho Lucas, hoje com 15 anos. Como a negociao corre em sigilo, ainda no se sabe o que resultar da deciso de submeter os trechos  apreciao de Luciana. A Objetiva nega estar se sujeitando  autocensura. "Ela fez sugestes que foram compartilhadas com o autor. Mas essas observaes no levaram  supresso de nenhum trecho na verso brasileira", declarou um porta-voz da editora a VEJA. 
     Com a consulta preventiva a Luciana, a Objetiva busca evitar um processo. O sinal vermelho se acendeu em 2012, quando a ex de Jagger venceu uma batalha contra o tabloide ingls Daily Mayl. Em resumo do livro publicado pelo jornal, Luciana era descrita como ex-atriz de soft porn  na biografia, na verdade, o epteto ertico  empregado em referncia  me dela, Vera Gimenez. O jornal se retratou no s pelo equvoco, mas tambm por outra informao extrada fielmente do livro: a verso de que Jagger teria pago a Luciana uma indenizao de 5 milhes de dlares, alm de uma penso de 25.000 dlares mensais (fontes prximas a ela juram que no houve indenizao e que a penso seria de metade desse valor). A insegurana da Objetiva cresceu quando o prprio Andersen pediu que fossem alterados trs trechos. Todas as informaes sobre Luciana passaram a ser examinadas com lupa. Foi suprimida uma expresso de baixo calo sobre uma "personagem brasileira" cujo nome a editora no confirma.  provvel que se trate de declarao de Jerry Hall, ex-mulher de Jagger, qualificando uma amante dele  a qual Andersen infere ser Luciana  de little tramp ("vadiazinha"). Sabe-se que a apresentadora no gostou e pediu o corte do xingamento. Tambm estaria na mira a parte sobre a primeira relao sexual do casal, que o bigrafo diz ter ocorrido no canil de uma manso, em 1998. 
     A Objetiva cerca o caso de discrio pelo temor de que o livro se torne a prxima vtima da draconiana proibio de biografias no autorizadas prevista no Cdigo Civil, cuja abolio tramita em banho-maria no Congresso. Por si mesmo, contudo, o caso prova que a proibio no faz sentido. Como demonstra a experincia de Luciana na Inglaterra, os biografados que se sentem ofendidos tm outros instrumentos legais para se defender. "No sou a favor de censura, mas tampouco sou conivente com mentiras", diz ela. No d para discordar. No entanto, tambm no  razovel que, em nome da preveno desse risco, continue em vigor uma legislao que impede que se conhea a vida dos famosos para alm das biografias chapa-branca. 
MARCELO MARTHE


8#5 TELEVISO  A NOSTALGIA  DOURADA
E a breguice tambm: o canal Viva, dedicado a reprises, apresenta dez novas edies do Globo de Ouro, o parado de sucessos musicais que esteve no ar por dezoito anos.
BRUNO MEIER

     De jaqueta com ombreiras, Byafra anda pelo palco com um jeito duro que lembra um Playmobil, aquele bonequinho sem articulao no joelho. Antes de cantar Sonho de caro, ele recorda a apreenso que sentia, dcadas atrs, quando se apresentava no Globo de Ouro. "Eu entrava na Globo como se o prdio da emissora fosse um disco voador. Era tipo uma viagem para Marte, de to nervoso que eu ficava", diz. H cerca de um ms, mais de oitenta artistas  de Anglica a Moraes Moreira, de Ney Matogrosso a Sidney Magal, de Gilberto Gil a Rosanah  passaram pelo Teatro Tom Jobim, dentro do Jardim Botnico do Rio de Janeiro, para reviver o Globo de Ouro. Muitos, como Byafra, eram veteranos do programa original; outros, como o sambista Diogo Nogueira  que homenageou Agep com o clssico romntico-cafajeste Deixa Eu Te Amar , foram, quando crianas, apenas espectadores do programa musical que a Globo exibiu por dezoito anos. Com camisa apertada, grudada no peito, Elymar Santos conta que pegou a "raspa de tacho" do Globo de Ouro, perto de seu fim, em 1990. "Havia programas emblemticos na carreira de um artista. Estrelar o clipe do Fantstico, passar pelo Chacrinha e, principalmente, explodir no Globo de Ouro era garantia de shows lotados. Bicho, quem fazia todas as trs coisas tinha um ano lindo", diz Faf de Belm, para logo soltar uma gargalhada e subir ao palco com Nuvem de Lgrimas. O resultado de onze dias de gravaes vai ao ar a partir de segunda-feira, s 11 da noite, em dez edies especiais no Viva, canal dedicado  nostalgia. 
     Lanado em 1972, o Globo de Ouro foi uma grande vitrine da msica brasileira de ento  incluindo aquelas vertentes populares que no ganhavam espao nos festivais dos anos 60 e 70, mais intelectualizados e politizados. Comeou com uma edio mensal e, em 1976, se tornou semanal, ocupando o horrio de Silvio Santos aos domingos, quando o apresentador deixou a Globo. A proposta era sempre exibir ao pblico as dez msicas mais tocadas nas rdios brasileiras. Grande parte dos custos  como o transporte dos msicos  era bancada pelas ento poderosas gravadoras, interessadas em mostrar seus artistas mais lucrativos. "Hoje no so mais as gravadoras, mas os empresrios que tm esse controle sobre os artistas", compara Bernardo Vilhena, roteirista do programa original e agora do revival. 
     Desde 2012, o Viva vem reprisando o Globo de Ouro. Mas, na era da msica digital, no h lugar para "paradas de sucesso" na TV aberta. Os musicais televisivos hoje vo no cruzamento do programa de calouros com o reality show  tal  o caso de The Voice Brasil. H quem tenha saudade. "A gente vivia uma poca de ouro. D a impresso de que o passado era um pouco mais glorioso", diz Berna Ceppas, diretor musical do especial. Mas a glria no resiste s ombreiras dos anos 80: "Reprisamos o Globo de Ouro porque ele  quase um programa de humor.  engraado ver o comportamento e o figurino dos artistas na poca", diz Letcia Muhana, diretora do Viva. Nono canal mais visto da TV paga, o Viva, criado em 2010, tem ganhado cacife no s para exibir o arquivo da Globo mas tambm para produzir novas edies de velhos sucessos. O primeiro foi Sai de Baixo, no ano passado  os quatro novos episdios foram os mais vistos na TV paga em seu horrio. Em janeiro, numa reunio entre o comit artstico da Globo e a direo do Viva, ficou acertada a produo da nova leva do Globo de Ouro. 
     Na plateia de pouco mais de 100 pessoas, havia muitas senhoras com idade para sentir saudade do programa original. Elas faziam coreografias em grupo e, nos intervalos entre uma e outra apresentao, eram regidas por uma assistente de direo, para que as cmeras registrassem momentos de animao. Na gravao acompanhada pela reportagem de VEJA, Faf de Belm recebeu gritinhos de "linda" ao entrar em cena com um vestido do estilista Markito  com ombreiras, claro. ltima atrao do dia, Elymar Santos empolgou com Escancarando de Vez, mas ficou ressabiado quando a reportagem o alinhou a um gnero tido como maldito. "No sou brega. Sou popular", contesta. Mas quem diz que a breguice no  dourada? 


8#6 VEJA RECOMENDA
CINEMA
BOA SORTE (BRASIL, 2014. ESTREIA NO PAS NESTA QUINTA-FEIRA)
 Muito bem j no sucesso Bruna Surfistinha, Deborah Secco se revela notavelmente segura e desenvolta no papel de Judite, internada em uma clnica psiquitrica carioca em razo da avidez com que prova e consome drogas variadas.  a prpria Judite quem toma a iniciativa de se aproximar de Joo (o novato Joo Pedro Zappa), um jovem tmido que os pais puseram na clnica por causa de sua depresso e de sua paixo por comprimidos  em particular Frontal acompanhado de Fanta, mistura que ele acredita ser capaz de conferir o dom da invisibilidade. Judite, to experiente, e Joo, to inocente, formam um par que a princpio parece incongruente. Mas ela, to carente, e ele, to amoroso, so na verdade companheiros naturais. Judite, porm, precisa ensinar Joo tambm a se desapegar: como diz para ele j na primeira conversa, seu fgado foi para o espao, ela no mais pode tomar os medicamentos que controlam o HIV e seus dias esto no fim. Estreia na direo de longa-metragem de Carolina Jabor, filha do tambm cineasta Arnaldo Jabor, Boa Sorte acerta no elenco, no tom e, algo no muito frequente na produo nacional, at na recriao fidedigna e detalhada da clnica decrpita em que se passa a histria.

SAINT LAURENT (FRANA/BLGICA, 2014. J EM CARTAZ NO PAS)
 Afinal, o que h de to especial na vida do estilista francs Yves Saint Laurent (1936-2008) para que ela merea ser tema de dois filmes em menos de um ano? Na Frana, Saint Laurent  um patrimnio nacional, to reverenciado quanto um artista ou escritor de peso. Para os iniciados no sistema da moda,  o responsvel por mudanas fundamentais no vesturio feminino. Para os leigos, o nome de uma grife de luxo. Yves Saint Laurent, dirigido por Jalil Lespert e lanado no incio do ano, era apenas uma biografia convencional. J este novo Saint Laurent conseguiu abarcar a relevncia do mito, a fasca do gnio e as contradies do homem atormentado. O diretor Bertrand Bonello centra a ao entre 1967 e 1976  o auge criativo de Saint Laurent (Gaspard Ulliel, excelente) , recriando das boates da poca a duas colees de alta-costura. O que se v  a obsesso do estilista com o trabalho e as relaes em seu crculo ntimo: o marido empresrio, Pierre Berg (Jeremie Renier), as amigas musas (La Seydoux e Aymeline Valade) e o amante decadente (Louis Garrel) com quem mergulha no submundo do sexo e das drogas. Apesar de flertar com o escndalo, o retrato se revela consistente o bastante para atingir um pblico alm da rarefeita atmosfera da moda.

DISCO
MY FAVOURITE FADED FANTASY, DAMIEN RICE (WARNER)
 O irlands Damien Rice  o autor de The Blower's Daughter, que no Brasil virou  Isso A, verso cantada a plenos pulmes por Ana Carolina e Seu Jorge. Mas no o culpe por versos traduzidos como "um vendedor de flores / ensinar seus filhos a escolher seus amores". Rice  bom letrista e um criador de delicadas melodias folk, que canta em falsete, acompanhado de seu violo (e de arranjos de cordas e piano). My Favourite Faded Fantasy demorou oito anos para ser concludo e traz somente oito canes. A causa de tamanha lentido criativa estaria na traumtica separao de Rice e Lisa Hannigan, tambm cantora e compositora, musa dos dois primeiros discos do cantor. O lbum foi produzido por Rick Rubin, mestre em lapidar a sonoridade dos artistas com os quais trabalha  neste disco, ele explora a dor na voz de Damien Rice. As letras so um apanhado de contos sobre mgoa e separao. Cuidado: confessionais (e belssimas), It Takes a Lot to Know a Man e The Greatest Bastard podem levar quem j est na fossa a estados de vexaminoso colapso emocional.

LIVROS
NOITES LEBLONINAS, DE JOO UBALDO RIBEIRO (ALFAGUARA; 104 PGINAS;
29,90 REAIS)
 Noites Lebloninas e O Cachorro Falafina e Seu Dono Dagoberto, os dois contos reunidos neste livro pstumo, so narrados pelo mesmo personagem, o porteiro baiano de um edifcio no Leblon. Conforme relata o poeta Geraldo Carneiro no prefcio do livro, essa figura de um baiano exilado no Rio de Janeiro permitiu que Joo Ubaldo Ribeiro, baiano da Ilha de Itaparica, resolvesse um impasse criativo: o autor de Viva o Povo Brasileiro (romance que est ganhando reedio, tambm pela Alfaguara) queria escrever histrias que registrassem o cotidiano bomio do bairro onde morava, mas, no sendo carioca, se sentia desconfortvel para mimetizar a fala das ruas do Leblon. O livro deveria contemplar mais contos, mas Joo Ubaldo morreu em julho, aos 73 anos, de embolia pulmonar, deixando apenas duas narrativas concludas. O fino humor do narrador-porteiro se revela nas preciosas construes verbais do escritor. Uma provinha: de um personagem que tem uma grave crise de sade dentro de um txi,  dito que apresentava "condio altamente morredia".

O BICHO-DA-SEDA, DE ROBERT GALBRAITH (TRADUO DE RYTA VINAGRE; ROCCO; 464 PGINAS; 49,50 REAIS)
 Cormoran Strike, detetive particular que acaba de virar notcia em Londres por ter solucionado um caso difcil, recebe em seu escritrio Leonora, mulher do temperamental escritor Owen Quine  que ento est desaparecido h dez dias. Mais por ter ficado intrigado com a histria do que pela perspectiva de bons honorrios, Strike comea a procurar pelo autor sumido. E  s na pgina 133 que o escritor afinal aparece  brutalmente assassinado, e com elementos cnicos (sete jogos de prato e talheres em volta do corpo) que reproduzem a cena final de seu ltimo livro. Detalhe: essa obra permanece indita, recusada pelos editores, pois Quine revelava os podres de vrias pessoas de seu crculo de relaes. O Bicho-da-Seda  o segundo livro de Robert Galbraith, que nada mais  que o pseudnimo com que J.K. Rowling, autora da srie Harry Potter, assina seus livros policiais. Como no anterior O Chamado do Cuco, a criadora do popular bruxo demonstra que sabe conduzir a narrativa de um thriller feito para envolver e divertir leitores adultos. 


8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
2- O Sangue do Olimpo. Rick Riordan. INTRNSECA 
3- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO
4- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA 
5- Quatro. Veronica Roth. ROCCO
6- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
7- Felicidade Roubada. Augusto Cury. SARAIVA 
8- Felizes para Sempre. Nora Roberts. ARQUEIRO
9- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
10- Divergente. Veronica Roth. ROCCO 

NO FICO
1- Nada a Perder 3. Edir Macedo. PLANETA
2- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA
3- Aparecida. Rodrigo Alvarez. GLOBO 
4- Guga  Um Brasileiro. Gustavo Kuerken. SEXTANTE 
5- Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS
6- Bela Cozinha: as Receitas. Bela Gil. GLOBO
7- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
8- Manual do Mundo. Alfredo Luis Mateus e Iber Thenrio. SEXTANTE
9- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
10- Getlio 1945-1954. Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
3- De Volta ao Mosteiro. James Hunter. SEXTANTE
4- Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
5- Resolva! Marcus Vinicius Freire. GENTE
6- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
7- As Regras de Ouro dos Casais Saudveis. Augusto Cury. ACADEMIA DE INTELIGNCIA 
8- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. SARAIVA
9- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
10- Quem Me Roubou de Mim?. Padre Fbio de Melo. PLANETA


8#8 J.R. GUZZO  CAROS LEITORES
     Os leitores de VEJA tm o direito de perguntar a si mesmos o que, afinal de contas, esto fazendo de to errado assim. Ouvem dizer o tempo todo, do governo e do seu sistema de suporte, as coisas mais horrveis a respeito da revista que gostam de ler  tanto gostam que continuam a l-la, semana aps semana, sem a menor obrigao de fazer isso. Haveria a alguma tara secreta, ou outro tipo qualquer de desvio de conduta? A pregao espalhada diariamente pelos mecanismos de propaganda a servio do governo parece sugerir que existe, sim, uma doena muito sria com esses cidados: como poderiam, caso fossem pessoas sadias, buscar informao e outros itens de interesse num veculo que faz parte das leituras proibidas pelo Santo Ofcio do PT? Ainda na vspera da ltima eleio, a presidente da Repblica, em pessoa, prometeu que iria processar a revista "na Justia", aparentemente com uma ao penal, por crimes no especificados e, segundo ela, gravssimos. At agora no entrou com ao nenhuma,  verdade, mas e da? O que importa  afirmar que o leitor est sendo cmplice de uma publicao "criminosa"  e como tal, segundo a filosofia do ex-presidente Lula, torna-se nazista, inimigo do Menino Jesus e participante de um golpe de Estado para derrubar Dilma Rousseff e o governo popular do PT.  
     Uma pgina de revista, como pode atestar algum que j passou um certo tempo nesta vida, no  mais que isso  uma pgina de revista, apenas, obra que reflete os limites de quem a escreve e que no est programada para funcionar como uma distribuidora automtica de verdades. Mas, no caso, esta coluna pode garantir, com margem de erro de 0%, que no existe rigorosamente nada de errado com os leitores, nem com sua deciso de escolher a leitura que bem entendem. O erro est do lado de quem os acusa, pelo mero fato de lerem VEJA, de serem nazistas, fascistas, caluniadores, mentirosos, golpistas, homfobos, racistas, antinordestinos, defensores do trabalho escravo, inimigos dos pobres e autores de sabe-se l quantos crimes ainda. Cada uma dessas acusaes, obviamente,  demncia pura  mas, se VEJA  tudo isso a acima, como o governo e sua tropa no param de dizer, seus leitores tambm o seriam, no  mesmo? Como todos eles sabem perfeitamente bem que no o so, o melhor que tm a fazer  ignorar a gritaria e tocar a vida para a frente. Para que se estressar com pecados que no cometemos? 
     Na verdade, os leitores tm um excelente motivo para se sentir satisfeitos: so eles, e ningum mais, que mantm viva esta revista. Eis a a chave de tudo. Enquanto acharem que VEJA tem mritos suficientes para continuar a ser lida, os leitores formam uma linha de defesa que governo nenhum consegue derrubar  e estaro ganhando o confronto com as foras que querem decidir o que eles podem e o que no podem ler. Ao contrrio do que gostaria a mquina de propaganda oficial, diretamente ou por meio da vasta e carssima rede de auxiliares que montou na internet para agredir a imprensa livre, VEJA e os jornalistas que aqui trabalham no precisam do governo, seus 39 ministrios, suas verbas de publicidade, seus empregos, seus contratos de "prestao de servios" e por a afora. Precisam, isso sim, do pblico  e a as coisas se complicam para quem est mandando no Brasil, pois simplesmente no h discurso de autoridade, ameaa de processo, "rede social" nem nenhuma outra inveno capaz de fazer com que os leitores da revista sumam no espao.  a grande frustrao do mundo petista. O que no se perdoa a VEJA, mais que qualquer coisa,  o sucesso  pela ltima medio dos auditores do IVC, em julho de 2014, sua tiragem semanal est em 1.100.000 exemplares. H doze anos o governo e seus estrategistas de "mdia" tentam resolver esse problema. Continuam no mesmo lugar. 
     Os governos do PT conseguiram, com muitos milhes, montar durante esse tempo uma vasta rede de "imprensa a favor". Mas  justamente a que mora o problema: imprensa a favor no vale nada. Quem a respeita? Balzac dizia que era mais fcil escrever um romance do que arrumar o dinheiro para pagar o papel e a impresso. No caso, poderia dizer que  mais fcil escrever publicaes inteiras de louvao ao governo do que encontrar leitores que as levem a srio. O que interessa para quem manda, na verdade, no  publicar aquilo que quer;  impedir que seja publicado aquilo que no quer. Isso no se resolve fazendo insultos a VEJA em notas oficiais, blogs ou comcios. S se resolve com o silncio do "controle social". 


